Como se percebe, a família tem necessitado de ajuda e incentivo para superar as contrariedades do dia a dia que se opõem aos seus valores primordiais. Então surgem as seguintes perguntas: Onde estaria o grande mal que aflige a família e onde se inicia esse processo de desestruturação familiar? O que fazer para mudar esta realidade? Que alternativas buscar?
A Igreja juntamente com os leigos não cessam de buscar e apontar alternativas para ajudar as famílias a se reencontrarem com Deus e consigo mesma, procurando dar respostas positivas aos apelos da família que em meio à sociedade, muitas vezes sofre silenciosamente e neste silêncio vai perdendo sua força e vitalidade.
Os agrupamentos familiares e de casais, movimentos ou associações, aparecem como proposta concreta de valorização e resgate do matrimônio e da família. São diversas associações familiares que desempenham um papel importantíssimo para o prolongamento do Reino de Deus neste mundo.
Com intuito real de unir forças e promover o bem dos cônjuges e consequentemente da família surge na França no final da década de trinta, as Equipes de Nossa Senhora[1], encabeçada por alguns casais e o sacerdote Henri Caffarel, os quais dão início a este movimento eclesial de casais cristãos, buscando respostas para o melhoramento do seu relacionamento matrimonial.
Não há como negar que o casal Gerard e Madeleine, surge como que precursor dessa obra maravilhosa que são as Equipes de Nossa Senhora. O desejo profundo de Madeleine em melhorar sua relação conjugal aprofundando o sentido espiritual do matrimônio, e também os outros sentidos que viriam em acréscimo, insere no seio da Igreja um movimento de espiritualidade conjugal muito precioso e necessário para o desenvolvimento das relações conjugais em todos os sentidos, fossem eles corporais ou espirituais.
Não se pode deixar de notar a sensibilidade no acolhimento do Pe. Henri Caffarel diante do apelo daquela mulher. Seu “sim”, a exemplo do “sim” de Maria (cf. Lc 1,38), alcançará um sentido inimaginável, talvez, até pelo o próprio Pe. Caffarel quando decidiu ajudar aquele casal. Com certeza Pe. Caffarel não tinha noção de que aquele gesto em acolher alguns casais e ajudá-los, a luz do evangelho de Jesus Cristo, ouvindo-os, aconselhando-os e partilhando suas alegria e dores, tornar-se-ia um dos mais completos itinerários de fé para o aprimoramento da espiritualidade conjugal, através de uma catequese matrimonial e espiritual colocada a disposição das famílias cristãs.
Na primeira reunião entre o Pe. Caffarel e os outros casais falou-se exatamente sobre “o amor, e mais concretamente, o amor no matrimônio” [2]. Verifica-se com este tema o grau de profundidade que teriam aqueles encontros, abordando justamente aquilo que nutre a relação matrimonial, ou seja, o amor. Não um amor qualquer, inconstante e inconveniente, mas o amor conjugal. Nascente da relação familiar e propulsor de vida abundante e dignificada para toda sociedade, pois este mesmo amor representa a relação do homem e mulher com Deus.
Os “Grupos Nossa Senhora das Famílias” [3] apresentam uma nova proposta sobre o amor no matrimônio, surgindo assim “o que se chamará de ‘espiritualidade conjugal’: os casados são chamados à santificação, não apesar do casamento, mas no e pelo casamento” [4]. O Pe. Henri Caffarel apresenta a espiritualidade conjugal como sendo “a arte de viver no estado do casamento toda uma vida cristã conforme os desígnios de Deus” [5]. A espiritualidade conjugal estreita os laços entre Deus e o próprio casal, capacitando os cônjuges ao reconhecimento de que o amor conjugal é uma extensão do amor divino e por isso merece todo empenho, afeição e dedicação por parte daqueles que o tomam sobre si.
Mas qual seria verdadeiramente a grande novidade trazida pelas Equipes de Nossa Senhora e o que estaria acontecendo com os casais cristãos para se propor aquela nova alternativa de vida matrimonial? O Pe. Caffarel na sua percepção nos diz que “os cristãos cumprem suas obrigações religiosas, para estarem moralmente ‘em regra’. Marido e mulher levam vidas cristãs paralelas, que podem até ser fervorosas, mas são assuntos privados de que não falam entre si” [6].
Muitos casais vivem em aparente harmonia, porém quando se trata da capacidade de dialogar são extremamente alheios ao assunto. Ambos não buscam aprofundar-se nesta matéria e até chegam a dizer que não tem tempo para isto, como se o diálogo no matrimônio fosse algo que pudesse ser dispensado ou anulado. Infelizmente após o matrimônio, alguns casais tornam-se como que estranhos que não conversam cotidianamente e não levam em conta a nova realidade trazida pelo sacramento, que exige uma abertura constante por parte dos cônjuges e que sem a presença de diálogo, de vidas colocadas em comum e a disposição do outro não se é capaz de alcançar uma vivência matrimonial satisfatória. A intenção do Pe. Caffarel era que os cônjuges descobrissem também que o sacramento do matrimônio os conduziria ao diálogo com Deus e a uma íntima relação com Cristo. Descobririam igualmente que se voltando um para o outro estariam voltando-se e caminhando ao encontro de Deus.
Partindo do princípio que o matrimônio está ordenado à salvação de outrem[7], surge a reflexão de que este sacramento não se fecha em si mesmo, mas ao contrário abre-se aos cônjuges, as outras pessoas e ao mundo, revelando os mistérios de Deus através da família. Revela-se primeiramente aos próprios cônjuges na sua íntima relação de união, de fé e de amor entre si próprios e Jesus Cristo, depois aos filhos através de uma educação cristã autêntica, fundada no amor e nos valores primordiais na valorização e no respeito a dignidade humana. E como conseqüência abre-se a toda comunidade, como dispensadora do amor e das graças de Deus, como serva fiel, pronta a ajudar a comunidade e os mais necessitados nas suas maiores dificuldades, colocando-se a disposição das outras famílias. Assim reafirmam-se as palavras do Pe. Caffarel quando ele diz que “o matrimônio consiste em dar-se um ao outro para, juntos, dar-se aos outros” [8].
A afirmação acima traz uma reflexão profunda sobre o papel do casal cristão. Muitos casais ainda não descobriram sua potencialidade diante do serviço que devem prestar a toda comunidade e a Igreja. Verificam-se casais que se encontram como que hibernando, em um casulo fechados em si mesmos, incapazes de manifestar a si próprios e aos outros a grandeza do sacramento do matrimônio. Faz-se necessário que estes mesmos casais reencontrem aquela alegria e jovialidade da graça derramada sobre eles ao darem seu “sim” diante do altar de Cristo, fazendo rejuvenescer aquele mesmo amor de antes, manifestando-o através de suas vidas e do seu exemplo.
As Equipes de Nossa Senhora[9] com o passar do tempo vai assumindo seu carisma e modo de ser próprios. E “Assim surge o germe inicial, cheio de tão promissoras colheitas” [10]. Diante do crescimento das ENS, torna-se necessária uma melhor organização através dos seus Estatutos[11], onde se estabelece um itinerário ou regras que ajudará o casal na busca de sua espiritualidade conjugal. O crescimento das ENS torna-se imenso, ultrapassando os limites da França[12], sendo o Brasil o primeiro país de língua não francesa a receber as ENS[13]. Não se pretende descrever sua expansão, mas como as ENS podem dar respostas positivas às questões familiares, pois “somente através de um crescimento na exigência espiritual será possível responder eficazmente à crise que abala os casais e as famílias” [14].
No intuito de levar uma vida autenticamente cristã, os casais buscam nos Estatutos a razão de ser do seu matrimônio e das ENS. Revela-se um novo modo de ser comunidade[15] e um novo espírito eclesial dentro da realidade familiar e matrimonial que sugere um projeto que perpassa todas as esferas da vida. Desde a possibilidade da vivência de um relacionamento real e intenso com Deus através da efetivação do próprio Batismo até a própria vivência familiar e social. Surgem então as “equipes[16]”, casais cristãos que juntos e em comunidade se consagram inteiramente a Cristo através do serviço, da doação e da entrega total a Deus e aos irmãos. É uma proposta radical e revolucionária que desponta como fortalecedora do matrimônio e da família.
Os casais das ENS sabem que sozinhos não terão forças suficientes para enfrentar as lutas diárias, tanto internas no convívio do lar como externas no convívio e pressões da sociedade. Contudo, juntos e unidos num mesmo ideal, família com família, eles terão forças suficientes para ajudarem-se mutuamente de forma material e espiritual[17]. Exprimindo de forma clara os objetivos das ENS que “é o de ajudar os casais a viver plenamente o Sacramento do Matrimônio” [18].
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[1] No dia 25 de fevereiro de 1939, nasce a primeira Equipe de Nossa Senhora, que até então se chamavam de “Grupos”. Toma o nome de Nossa Senhora de Todas as Alegrias. Esta iniciativa, surgida de uma necessidade difusa, vai ser chamada a um grande porvir. (Cf. Caffarel, 2006, p. 6.).
[2] ALLEMAND, Jean e Annick. As origens da Equipes de Nossa Senhora. Apud CAFFAREL, Henri. A Missão do Casal Cristão: Surgimento e caminhada das Equipes de Nossa Senhora. São Paulo: Nova Bandeira, 2006. p. 6.
[3] Primeiro nome dado ao que posteriormente viria a ser as Equipes de Nossa Senhora, que se colocaram sob o patrocínio de Nossa Senhora – porque não há melhor guia para levar a Deus do que a própria mãe de Deus. (cf. GUIA das Equipes de Nossa Senhora. São Paulo: Nova Bandeira, 2003. p. 70.)
[4] ALLEMAND, Jean e Annick Apud CAFFAREL, 2006. p. 6.
[5] Moncau, 2000, p. 11.
[6] ALLEMAND, Jean e Annick Apud CAFFAREL, 2006. p. 7.
[7] CIC 1534.
[8] ALLEMAND, Jean e Annick Apud CAFFAREL, 2006. p. 8.
[9] O Movimento das Equipes de Nossa Senhora é reconhecido oficialmente pela primeira vez, pela Igreja, em 1960, através de uma carta do Cardeal Feltin, Arcebispo de Paris. Em 1975, o Pontifício Conselho para Leigos confere às equipes de Nossa Senhora o reconhecimento como Associação Católica Internacional. Enfim, em 1992, é publicado um decreto de reconhecimento, como uma associação de fiéis de direito privado,pelo mesmo Pontifício Conselho para Leigos. (Cf. GUIA das Equipes de Nossa Senhora. São Paulo: Nova Bandeira, 2003. p. 8.)
[10] ALLEMAND, Jean e Annick Apud CAFFAREL, 2006. p. 9.
[11] Impõe-se, porém, uma exigência mais vital: dar uma “regra” a este movimento que se desenvolve aos seus membros. Uma regra que sintetize a intuição primeira e os meios de pô-la em prática, que foram aparecendo aos poucos, ou que situem a lógica das metas que se busca atingir. São os “Estatutos”, promulgados em 8 de dezembro de 1947. Surgindo desta forma a denominação definitiva de “Equipe de Nossa Senhora”, que até então eram chamados de “grupos”, os quais são convidados a aderir aos Estatutos. (Cf. ALLEMAND, Jean e Annick Apud CAFFAREL, 2006. p. 11)
[12] Em 1947, o movimento ultrapassa as fronteiras da França, para se implementar na Bélgica e na Suíça. Ano após ano, vai alcançando novos países. Brasil e Luxemburgo em 1950, a Ilha Maurício em 1953, Espanha e Canadá em 1955, Inglaterra em 1956, Portugal em 1957, Alemanha e Estados Unidos em 1958, Áustria e Itália em 1959, Austrália e Colômbia em 1961. (Cf. ALLEMAND, Jean e Annick Apud CAFFAREL, 2006. p. 12)
[13] Moncau, 2000, p. 24.
[14] ALLEMAND, Jean e Annick Apud CAFFAREL, 2006. p. 15.
[15] Uma Equipe de Nossa Senhora é uma comunidade cristã de casais. Formada por 5 a 7 casais, assistidos por um sacerdote. Ninguém entra numa equipe sobre pressão, nem aí permanece forçado. Cada um nela se conserva ativo e fiel ao Espírito. Os seus membros, para levar a bom êxito o seu propósito comum, aceitam viver lealmente a vida comunitária. Esta vida comunitária tem suas leis, as suas exigências próprias, que se concretizam na escolha de certo número de objetivos comuns e de meios bem determinados para progredir no sentido desses mesmos objetivos. (O que é uma Equipe de Nossa Senhora, 1976 Apud CAFFAREL, 2006, p. 129.).
[16] A palavra “equipe” exprime claramente o espírito e a unidade necessária para a busca de um desejo comum; porque os casais fazem esforços juntos e porque eles se ajudam mutuamente, preocupando-se com os outros, com o seu progresso espiritual e humano. (Cf. GUIA das Equipes de Nossa Senhora. São Paulo: Nova Bandeira, 2003. p. 13.).
[17] Ibid., p. 15.
[18] Ibid., p. 12.
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[1] No dia 25 de fevereiro de 1939, nasce a primeira Equipe de Nossa Senhora, que até então se chamavam de “Grupos”. Toma o nome de Nossa Senhora de Todas as Alegrias. Esta iniciativa, surgida de uma necessidade difusa, vai ser chamada a um grande porvir. (Cf. Caffarel, 2006, p. 6.).
[2] ALLEMAND, Jean e Annick. As origens da Equipes de Nossa Senhora. Apud CAFFAREL, Henri. A Missão do Casal Cristão: Surgimento e caminhada das Equipes de Nossa Senhora. São Paulo: Nova Bandeira, 2006. p. 6.
[3] Primeiro nome dado ao que posteriormente viria a ser as Equipes de Nossa Senhora, que se colocaram sob o patrocínio de Nossa Senhora – porque não há melhor guia para levar a Deus do que a própria mãe de Deus. (cf. GUIA das Equipes de Nossa Senhora. São Paulo: Nova Bandeira, 2003. p. 70.)
[4] ALLEMAND, Jean e Annick Apud CAFFAREL, 2006. p. 6.
[5] Moncau, 2000, p. 11.
[6] ALLEMAND, Jean e Annick Apud CAFFAREL, 2006. p. 7.
[7] CIC 1534.
[8] ALLEMAND, Jean e Annick Apud CAFFAREL, 2006. p. 8.
[9] O Movimento das Equipes de Nossa Senhora é reconhecido oficialmente pela primeira vez, pela Igreja, em 1960, através de uma carta do Cardeal Feltin, Arcebispo de Paris. Em 1975, o Pontifício Conselho para Leigos confere às equipes de Nossa Senhora o reconhecimento como Associação Católica Internacional. Enfim, em 1992, é publicado um decreto de reconhecimento, como uma associação de fiéis de direito privado,pelo mesmo Pontifício Conselho para Leigos. (Cf. GUIA das Equipes de Nossa Senhora. São Paulo: Nova Bandeira, 2003. p. 8.)
[10] ALLEMAND, Jean e Annick Apud CAFFAREL, 2006. p. 9.
[11] Impõe-se, porém, uma exigência mais vital: dar uma “regra” a este movimento que se desenvolve aos seus membros. Uma regra que sintetize a intuição primeira e os meios de pô-la em prática, que foram aparecendo aos poucos, ou que situem a lógica das metas que se busca atingir. São os “Estatutos”, promulgados em 8 de dezembro de 1947. Surgindo desta forma a denominação definitiva de “Equipe de Nossa Senhora”, que até então eram chamados de “grupos”, os quais são convidados a aderir aos Estatutos. (Cf. ALLEMAND, Jean e Annick Apud CAFFAREL, 2006. p. 11)
[12] Em 1947, o movimento ultrapassa as fronteiras da França, para se implementar na Bélgica e na Suíça. Ano após ano, vai alcançando novos países. Brasil e Luxemburgo em 1950, a Ilha Maurício em 1953, Espanha e Canadá em 1955, Inglaterra em 1956, Portugal em 1957, Alemanha e Estados Unidos em 1958, Áustria e Itália em 1959, Austrália e Colômbia em 1961. (Cf. ALLEMAND, Jean e Annick Apud CAFFAREL, 2006. p. 12)
[13] Moncau, 2000, p. 24.
[14] ALLEMAND, Jean e Annick Apud CAFFAREL, 2006. p. 15.
[15] Uma Equipe de Nossa Senhora é uma comunidade cristã de casais. Formada por 5 a 7 casais, assistidos por um sacerdote. Ninguém entra numa equipe sobre pressão, nem aí permanece forçado. Cada um nela se conserva ativo e fiel ao Espírito. Os seus membros, para levar a bom êxito o seu propósito comum, aceitam viver lealmente a vida comunitária. Esta vida comunitária tem suas leis, as suas exigências próprias, que se concretizam na escolha de certo número de objetivos comuns e de meios bem determinados para progredir no sentido desses mesmos objetivos. (O que é uma Equipe de Nossa Senhora, 1976 Apud CAFFAREL, 2006, p. 129.).
[16] A palavra “equipe” exprime claramente o espírito e a unidade necessária para a busca de um desejo comum; porque os casais fazem esforços juntos e porque eles se ajudam mutuamente, preocupando-se com os outros, com o seu progresso espiritual e humano. (Cf. GUIA das Equipes de Nossa Senhora. São Paulo: Nova Bandeira, 2003. p. 13.).
[17] Ibid., p. 15.
[18] Ibid., p. 12.
Texto retirado da Monografia “Equipes de Nossa Senhora: uma resposta as questões familiares. Do equipista Valdemir Soares de Silva, da Equipe Nossa Senhora de Fátima – Setor Caicó - Rio Grande do Norte.
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